Março de 2026 · Assoalho pélvico

Respiração e assoalho pélvico: a conexão esquecida

Existe uma conexão no seu corpo que provavelmente nunca te explicaram. E quando ela não funciona bem, os sinais aparecem de formas que parecem não ter relação: escape urinário, dor pélvica, sensação de pressão, desconforto na relação sexual, fraqueza no centro do corpo. A conexão é entre a respiração e o assoalho pélvico. E ela é mais profunda do que qualquer exercício de Kegel consegue alcançar.

O que é o assoalho pélvico — e o que ele realmente faz

O assoalho pélvico é um conjunto de músculos e fáscias que forma o fundo da pelve. Ele sustenta os órgãos internos, controla os esfíncteres urinário e anal, participa da função sexual e absorve o impacto das atividades do dia a dia. O assoalho pélvico saudável não é apenas forte — ele precisa ser móvel, capaz de receber impacto, dissipar essa força e retornar à posição de repouso. Quando essa mobilidade se perde — seja por fraqueza, seja por excesso de tensão — o sistema deixa de funcionar.

A respiração que você não percebe que está errada

A respiração e o assoalho pélvico formam um sistema coordenado. Em mulheres saudáveis, o diafragma, os músculos abdominais e o assoalho pélvico trabalham em sincronia durante a respiração. Na inspiração, o diafragma desce, a parede abdominal se expande levemente e o assoalho pélvico relaxa. Na expiração, os músculos abdominais e o assoalho pélvico se contraem antes do diafragma retornar à posição de repouso. Ou seja: inspirar e expirar bem já é, em si, um exercício para o assoalho pélvico. O problema é que a maioria das mulheres aprendeu a respirar de forma invertida — prendendo o ar, empurrando para baixo na inspiração, gerando pressão intra-abdominal no sentido errado. Esse padrão, repetido milhares de vezes por dia, sobrecarrega o assoalho pélvico de uma forma que nenhum exercício isolado consegue compensar.

Além do Kegel: o que a contração realmente precisa fazer

O exercício de Kegel foi um passo importante quando foi descrito nos anos 1940. Mas a compreensão da função do assoalho pélvico evoluiu muito desde então. Evidências científicas recentes demonstraram que a função fisiológica do assoalho pélvico é se contrair em sincronia com os músculos abdominais durante a expiração — não de forma isolada ou independente da respiração. Na prática, uma contração eficaz não é apenas apertar. É gerar um movimento para cima e para dentro — consciente, coordenado com a respiração, sem prender o ar e sem empurrar para baixo. Essa distinção é o que separa um exercício que fortalece de um exercício que apenas cria tensão sem função.

Quando o problema não é fraqueza — é tensão demais

Existe um equívoco muito comum: assumir que todo problema do assoalho pélvico vem de fraqueza. Não é verdade. A hipertonicidade — excesso de tensão muscular — gera sintomas urológicos, ginecológicos, gastrointestinais, problemas sexuais e dor pélvica crônica. Isso é especialmente comum em atletas e mulheres com alto nível de atividade física. O escape urinário numa atleta muitas vezes não vem de falta de força — vem de falta de mobilidade. Todos os extremos prejudicam. O assoalho pélvico precisa de equilíbrio — força e mobilidade, contração e relaxamento.

Quem sofre com isso — e normaliza sem precisar

É muito mais comum do que parece. Mulheres após segunda e terceira gestações. Atletas de alto desempenho. Mulheres sem filhos com histórico de tensão postural acumulada. O que todas têm em comum é a dificuldade de conectar com essa região do corpo. E o que todas relatam quando essa conexão é restabelecida vai além de parar com os escapes urinários: mais consciência corporal, mais conforto no dia a dia, mais prazer na relação sexual, mais qualidade de vida.

O que o trabalho de reabilitação faz

O ponto de partida não é o exercício — é a consciência. Antes de fortalecer, é preciso aprender a sentir. Localizar o músculo. Entender a diferença entre contrair para cima e para dentro — e empurrar para baixo. Aprender a respirar de forma que o diafragma e o assoalho pélvico trabalhem juntos. Quando essa base existe, o fortalecimento acontece de forma funcional e os resultados aparecem em pouco tempo. Importante: este trabalho complementa — e não substitui — o acompanhamento de fisioterapeuta pélvica quando há indicação clínica específica.

Paty Farago é especialista em reabilitação abdominal e postural com 14 anos de atuação. Atende presencialmente em Brasília e online para todo o Brasil.